23:20, segunda-feira.
- Alou...
- Fábio, tô indo para o Hospital levar o Pedro, que ir junto?
- Claro, o que foi?
- Ela tá inchado.
- Pego vocês aí. Dá um minuto.
.... chegando lá
- Oi Pai.
- Oi fofão, que foi contigo?
- Tô inxado Pai. Mas vou ficar bem. A gente vai descobrir o que é né?
Você deita a cabeça no meu ombro pedindo colo.
Putz, a cara tava
muito inchada. Os olhos lá no fundo. A carinha rosada de choro e da alergia. Apesar de um pouco abatido, você mantinha o bom humor. Vamos correndo para o hospital.
- Mas o que aconteceu, perguntei para Mamãe.
- Às 22:00 ele foi para cama. Estava muito agitado. Começou a se mexer e não parava. Eu xinguei ele porque já tava tarde e ele não parava. Ele começou a chorar baixinho. Eu perguntei porque tava chorando e ele disse que tinha
pulga na cama, por isso se mexia muito... Daí ele disse que ia fazer xixi, foi então que vi o rosto inchado e te liguei.
Chegando no
Hospital Regina em Novo Hamburgo ... apresentei o cartão de planos ca Coopersinos (é a Cooperativa dos funcionários de onde o Pai trabalha)
Demoraram para nos atender. Você lá com a cara inchada, me partia o coração. Escutando o berro de outras crianças, deu a entender que a emergência pediátrica tava movimentada.
Já na salinha entra uma
pediatra que eu já conhecia de outras noites...
abre parênteses "
Numa noite tivemos que ir no hospital às 02:00 da manhã. Você tinha 2 anos e 1 mês, se não me falha as idéias.Você não parava de reclamar de dor no pé. chorava desde a hora que foi dormir. Dormiu. Chorou. Passei gelol. Chorou, dormiu. Mas pela madruga, você acorda de novo e começa a chorar. Tá doendo meu pé Pai. Aonde fofão. Aqui ó, dói aqui. Pedi para você levantar. Você não conseguia botar o pé no chão e chorava. Bom, então te disse que iríamos para o hospital. Liguei para tua mãe neste horário e perguntei se ela queria ir junto e ela prontamente disse que sim. Já no hospítal lá tava esta pediatra, que acho que recém acordara. Te tratou muito mal, dando a entender que você não tinha nada, que era frescura. Te daria uma medicação e que nós teríamos que ficar até às 04:00 da manhã porque você ficaria em observação. Eu fiquei bem brabo. Falei para ela. Olha, desculpa se te tiramos do teu sono, mas ninguém tá aqui brincando. Não viemos passear aqui, se chegamos aqui é porque ele tava chorando e muito. Nós não vamos ficar em observação. Coloca aí no prontúário que nós estamos indo embora por que queremos. Nem me lembro se ela respondeu. Acho que o gelol fez efeito até chegar no hospital e tua dor sumiu. Você passara o dia pulando para lá e para cá. Do sofá para o chão, brincando com a Frida.fecha parentêses"
Após as enfermeiras entrarem e medir peso (18,5 Kg), temperatura (36,5) oxigênio no dedo (97), e conversar com você, chega a Pediatra:
- Tira a roupa dele. Tira as calças. Ó, é urticária. Tá vendo?
- Uhu, e daí... em outras palavras, pergunta a mãe.
- Bom.
Ela senta na mesinha e eu e você ficamos ali. Eu começo a colocar tua roupa e as duas mulheres a conversar. Mulher geralmente conversa bastante filho, mais que o normal para nós homens, mas para elas, o normal.
- blá, blá, blá.... blá, blá, blá..... injeção.
- Eu não quero
injeção Pai... buááááááá não quero
Pics, buááááá´....
vai doer Pai?Putz, você para variar sempre ligadinho. Escutou.
Bom, daí comecei a conversar com você para explicar o quanto ia doer.
Você até parou de chorar rápido.
Já na salinha... haviam 3 camas e fomos para a última.
Não pode ficar os dois disse a enfermeira.
- Você quer o Pai ou a mãe, perguntou a mamãe.
- Quero o Pai!
Mas não demos ouvidos fofão, ficamos os dois até o final.
Bom, aí chega a bendita enfermeira com uma bandeija com duas seringas. Nisso eu já tinha conversado com você bastante. Beliscado fraquinho para te mostrar o que iria doer, que seria só um pouco. Se doesse você apertaria meu dedão, que segurasse ele bem forte então.
Você olha para a bandeija... é mesmo Pai é pequena nem vai doerrrrrrr..... buáááá.... vai doer sim..... O Pics vai doer.
Bom, aí inicia uma sequência de fatos, que estou dolorido de tensão até agora,
dois dias depois.
Chegam as duas efermeiras. Te cercam. Nestas horas as crianças parecem um porco no matadouro. Atenção, preparar agulha. Segura, segura o braço. Põe a borracha, segura.
- Buá. Não quero, não quero.
Você tenta puxar a mãozinha, mas 3 mãos maiores que a tua imobilizam seu braço.
Agora, vai. Enfia a agulha. Não olha menino, é melhor. Eu quero olhar. Buá. (conseguiram botar a borboleta, a agulha era fininha... ufa)
A maldita primeira injeção não funciona, o negócio não desliza. Ela fica trocando de seringa. troca
umas 3 vezes. São duas. E você berrando.
- Não, tira.... me solta. Tá doendo.
Até que uma funciona. Ele injeta a primeira. Troca para a segunda.
- Um... dois.... três.... (
é você contando.... não acredito, vc teve a lucidez de contar para que a dor passasse mais rápido. A mãe tinha te ensinado isso qdo você foi tirar sangue, num outro dia)
- Tá ardendo, tá ardendo... tira! Tira! Para, não quero!
As mulheres do matadouro, e não é a primeira vez, injetam aquele anti-histamínico intra-venoso numa velocidade que creio que não é assim. Muito rápido. Você disse que tava doendo. Deve ter queimado a sua mãozinha.
Eu comecei a sentir um calourão.
Quando elas terminam de injetar...
- Ai.... ai.... (acho que o hospital inteiro ouviu) minha bunda, tá doendo minha bunda... massagem na bunda, massagem.... aiiiiiii..... massagem.......
Você levantou numa velocidade, muito ágil, e pedia massagem.
Eu me sentei, porque senti que ia
desmaiar. Coisa rara de acontecer comigo. Quase aconteceu quando vc nasceu
. Comecei a tirar minha roupa. Tava bem frio lá forae então tava com jaqueta, blusa de lã.
E durante os 20 minutos seguintes, você chorava e pedia para tirar a borboleta. O vermelhão na perna, na barriga, nas axilas, e o inchaço dos olhos havia baixado consideravelmente. Começou a fechar os olhos para dormir.... a muito custo você dormiu. Dormiu no colo da mãe me olhando nos olhos. Suas última palavras para mim... Tira pai, tira.
Eu não podia tirar Fofão aquela agulha da tua mãozinha. Mas juro que se isso acontecer de novo eu vou tirar sim.
Sua mãe e eu começamos a chorar com você no colo dormindo. Você estava exausto.
Saímos do hospital às 00:35 da madruga de terça-feira. Fomos para casa da mamãe. Passamos a noite preocupado com você. Não fui trabalhar naquela manhã. Você acordou às 09:45. Sua mãe tava em casa também. Fiquei mais um tempinho e fui para o trabalho. À noite, fui lá ficar com você de novo até sua mãe voltar do trabalho. A alergia ameaçou inciar de novo.
Havia comprado um jogo dos carros para você. Instalei no computador da tua mãe. Jogamos um pouco. Fiz um lanche para você. As 09:00 te coloquei no banho.
Enquanto vc tava no banho
chamei os santos e fiz uma limpeza na casa fofão, que tava carregada. Um dia eu te explico o que é isto.
Saiu às 09:35. Escovei teus dentes. Nos convencemos que já tava tarde para vc ainda ver desenhos...
Te botei na cama. Acende a luzinha fraca do quarto. Fiz a prece para o papai do céu querido e você dormiu... e eu também.
Acordei às 23:11. Tua mãe já tinha chegado. Passei o
script para ela. Sai da casa da mãe com muitas dores no corpo e com frio. Cheguei em casa, tomei um banho. Tomei remédio para dor forte que começou nas costas, na altura dos dois ombros....
Agora são 22:58. É quarta-feira. Estou no computador do trabalho. Ainda estou com dores, mais fracas, mas ainda doem.
Vou para casa. Tá frio e eu tô cansado.
Escrever esse relato me dá um certo alívio. Com certeza você não irá se lembrar deste dia, mas eu, e creio que sua mãe também, não vamos esquecer esta noite.
Olhar, sentir, escutar seu choro, seu lamento, seus
gritos dói, bastante.
Boa noite Fofão, dorme com os anjinhos.